Consagrado primeiro bailarino do Teatro Municipal é autor de enredo crítico da Beija-Flor

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Desfile idealizado por Marcelo Misailidis traçará paralelo 
entre o terror de Frankenstein e o momento do país

por LUDMILLA DE LIMA


Com Ana Botafogo, Misailidis em um ensaio para o balé “Giselle” - 
F/Leonardo Aversa 08-04-2003

RIO - A primeira experiência do consagrado bailarino Marcelo Misailidis na Sapucaí teve contornos de uma ópera trágica. Foi em 1998, quando, na Unidos da Tijuca, se integrou às vésperas do carnaval à escola para tentar dar uma cara à comissão de frente do enredo sobre o Vasco da Gama. Na hora H, deu quase tudo errado, mas não por sua culpa: a duas horas do desfile, ele estava na casa da componente principal tentando improvisar uma fantasia de Vênus, porque o figurino desapareceu no barracão, assim como as saias do restante das dançarinas. Neste caso, o jeito foi usar toalhas de mesa. Os adereços foram costurados já na Avenida com o que tinha à mão: um rolo de arame.

UM BAILARINO NA SAPUCAÍ

O bailarino Marcelo Misailidis, que desde 2002 comanda a comissão de frente da Beija-Flor, vai participar pela primeira vez de todo o  desenvolvimento do desfile.
Bailarino e coreografo do Theatro Municipal Marcelo Misailidis autor do enredo da Beija-Flor. Marcelo Misailidis começou sua carreira no mundo do carnaval em 1998, na comissão de frente da Unidos da Tijuca.

— Era como estar entrando no Coliseu para ser devorado. Era um filme de terror total — recorda o ex-primeiro bailarino do Teatro Municipal, que viu a Tijuca descer naquele ano. — Mas não gostaria de deixar o carnaval com uma sensação tão amarga, de fracasso total.

QUATRO ESTANDARTES

Ele insistiu e, em 1999, foi do “inferno ao céu de primeira classe”: a Tijuca voltou ao Grupo Especial, e a comissão só com bailarinos homens interpretando índios, numa coreografia visceral de concepção totalmente sua, acabou arrebatando a Avenida. De lá para cá, Misailidis ganhou quatro Estandartes de Ouro com comissões autorais e cantou vitória mais duas vezes na Quarta de Cinzas. Passou por Salgueiro, Vila Isabel e, desde 2012, veste a camisa da Beija-Flor, agremiação pela qual este ano faz uma aposta de risco: o professor da companhia de balé do Municipal e histórico bailarino do teatro — onde acaba de assinar a coreografia da ópera-balé “La tragédie de Carmen”— vai participar de todo o desenvolvimento do desfile, como uma grande diretor cênico.

Para começar, é dele a ideia do enredo “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, que promete ser tão ou mais crítico do que “Ratos e urubus... Larguem minha fantasia”, de Joãosinho Trinta (coincidentemente, ex-bailarino do Municipal). Num ato de genialidade que surpreendeu a escola de Nilópolis, ele vem, inclusive, desenhando carros alegóricos.

O enredo é uma viagem: Misailidis pegou a história de terror gótico “Frankenstein”, de Mary Shelley, que completa 200 anos em 2018, para traçar um paralelo com o momento do país. Ambição, abandono e intolerância serão os temas centrais. Uma receita de ingredientes políticos que ele próprio chama de explosiva:

— Hoje temos medo de sair nas ruas. E as mazelas sociais são a base desse primeiro arquétipo de romance de terror. O enredo é uma resposta forte à crise de valores atual — explica. — Vamos falar da ambição por poder e dinheiro. Foi a ambição científica que levou Dr. Frankenstein à recriação da vida. E o monstro é abandonado à própria sorte: hoje, vivemos o abandono da nossa cidade, das crianças, dos hospitais. Por último, existe a intolerância, que aparece quando a relação do criador com criatura entra em conflito. Intolerância é o choque que presenciamos no campo sexual, religioso. Não há tradução mais perfeita para essa obra.

Para ele, o ser humano mudou (quase) nada: ainda vive as mesmas carências e fragilidades, passados 200 anos. Mas, em se tratando de carnaval, o que o público deve esperar da Beija-Flor é um grande espetáculo, e não uma tragédia de mau gosto. À frente da comissão de carnaval da escola, que não tem carnavalesco, Laíla adianta que o desfile não citará políticos.

— Mas o povo vai entender (a crítica) por outros caminhos — avisa ele, responsável por levar o bailarino para Nilópolis. — O enredo se encaixa na necessidade do momento. A Beija-Flor quer ser a porta-voz da virada.

TERROR E REALIDADE

Citando o carnavalesco Fernando Pamplona, ex-cenógrafo do Municipal, e Joãosinho Trinta, Misailidis brinca que é uma “herança estranha” essa influência do teatro no carnaval. Uruguaio, ele se mudou com a família para o Brasil aos 6 anos. Vivia no interior de São Paulo quando, na adolescência, começou a estudar balé em Campinas por influência de uma namorada bailarina. Antes dos 18, chegou ao Rio para mergulhar no balé clássico. Com 23, depois de se aprimorar com a ajuda de Dalal Achcar, entrou direto no Municipal como primeiro bailarino. Foi companheiro no palco das maiores estrelas femininas do nosso balé, como Ana Botafogo e Cecília Kerche.

— Ele é inacreditável! — afirma, admirada, Ana Botafogo. — Ele é muito artista e sempre buscou a perfeição, sobretudo na emoção de cada personagem. Do balé, leva para o carnaval a disciplina e a dedicação à pesquisa. Ele sonha muito alto e faz o sonho se tornar realidade.

Hoje, aos 49 anos, morador do Flamengo, casado com a professora de história Danielle Uhebe e pai de três filhas — Sophie, de 6, Mirta, de 13, e Fernanda, de 23 —, ele lamenta a crise que abala esses dois pilares da cultura carioca. Para colocar “Carmen” no palco, Misailidis só teve duas semanas de preparação, quando o ideal seria um ano. É como se ele próprio fosse personagem desse enredo de terror que pretende levar para a Sapucaí:


— Num prognóstico otimista, de recuperação da economia em dois anos, só daqui a dez anos a arte voltará ao patamar de antes — avalia o bailarino, que sonha, pelo menos na Avenida, com um final feliz.

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