SEXTA, BOM DIA! | Da redação | Beija-Flor: a ousadia dos inovadores
O que era um programa de TV com cenários surpreendentes e luxuosos, como se propõem ser as alegorias para atender as exigências, mesmo veladas, de uma transmissão mais preocupada em vender 'serviço' do que em encantar o mundo inteiro, VIROU sim um espetáculo de beleza e encantamento e, mais ainda, se tornou uma ousada e desafiadora maneira de passar pela Passarela do Samba, mostrando uma manifestação de samba e arte, dramaturgia em andamento, com um enredo original e autêntico.
O que era um desfile linear, quase uma parada militar - contestada pelo intrépido Jamelão "Sambista não desfila!" - com todo mundo 'fardado' com fantasias cada qual querendo contar um capítulo de uma história só entendida por quem ouvia comentários dos narradores da televisão ou acompanhando a sinopse, PASSOU a ser uma grande ópera a céu aberto. Compreendida, sentida a cada ato em que o nome do Carnaval da atualidade, Luis Fernando "Laíla" Ribeiro do Carmo e seu escrete do Carnaval, formado por onze carnavalescos, transformaram os setores da apresentação de "A virgem dos lábios de mel - Iracema".
A Beija-Flor ousou e arriscou mais uma vez, mesmo não alcançando pontuar a almejada vitória, como reconhecimento de um trabalho que rompeu com as apresentações cada vez mais 'las vegasianas' para devolver um caráter mais brasileiro, lincado às origens das tradicionais escolas de samba, com todo o encantamento de uma manifestação de cultura, sem que perdesse o visual espetacular que a modernidade e o evento atualmente exigem.
A grandiosidade de suas alegorias, que lhe valeram definições como 'rolo compressor' – abrindo todos os caminhos com gigantismo e luxo, não foi de todo desprezada. Diante de tanta tecnologia não há mais espaço para retrocesso. A passagem da Beija-Flor pela Passarela do Samba definitivamente não foi um desfile. Não foi apenas entretenimento. Foi uma verdadeira manifestação cultural. A comunidade, a identificação com origem indígena, com o romance de José de Alencar, estavam lá, representados pela tribo Beija-Flor, em suas indumentárias de cocares e penas, variadas e coloridas; em suas danças de guerra e vitória; em suas alegorias ... desafiando a inteligência e sensibilidade dos jurados e espectadores.
Até onde pode, devia e queria, o escrete de carnavalescos da Beija-Flor rompeu com a estrutura das apresentações das escolas de samba. Mostrou o que Jamelão alertava: sambista não desfila. Samba! Evoluiu movido pelas origens, primeiramente, indígenas, depois movido por sua identidade pós-Descobrimento, imposta pela miscigenação que lacrou nossa brasilidade. Agradou ao ensejo do autor cearense José de Alencar, de ver sua obra transformada numa ópera viva, em movimento irrestrito, inquietante e que aspergia a nova brasilidade por todo o Sambódromo, agora com os 'novos nativos' vendo e aplaudindo.
Foi o que Beija-Flor mostrou com a ópera de José de Alencar: viu quem não quis ver, como também não viu quem quis ver. Porque afinal, tudo ficou lacrado no subconsciente de cada um. Agora é só acordar. Sábado (amanhã) tem mais.

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